NOS DERAM ESPELHOS E VIMOS UM MUNDO DOENTE

A cidade estava tão quieta hoje que dava para ouvir o barulho assustado do meu coração.
Respirava com lamento , mas ainda me sentia viva.
Culpada por esse privilégio, entre tantos outros, que nessa semana estavam tão evidentes.
O silêncio denso contava alto e em bom tom que um pedaço do mundo estava adoecido.
A dor está no ar .
O medo está no ar.
A miséria está no ar.
O descaso está no ar.
O vírus está no ar.
( Eu penso enquanto caminho )
A cidade muda no sábado à tarde , que mais parece domingo .
Mas o que parecia calma , era na verdade desalento.
Tem sido domingo há três meses .
Três longos meses.
Desde quarta feira de cinzas .
Semanas que revelam uma metrópole desprotegida , assustada.
Parece cinza.
Ainda que tenha sol .
Chegou outono , folhas no chão .
Nas ruas as pessoas tem medo de se aproximar .
Nem se olham de pavor .
Envergonhadas por sentirem repulsa umas das outras: “ Será que ele carrega o vírus ?” Penso ao cruzar um amigo na rua e de longe acenar .
Tudo fechado.
Parece Terra de ninguém.
Mas é minha terra. Onde eu nasci .
Tenho que me adaptar.
Essa noite choveu gelo.
Deve ser dos corações dos insensíveis aos números . Assim espero.
A semana começou com um homem suplicando para respirar enquanto outro colocava o joelho brutalmente em seu pescoço.
Eu li a notícia com pressa pois não aguentei . Mas a notícia virou protesto , entrou por todos os lugares , mesmo eu tentando mudar de canal .
Então sonhei com George .
George no chão , sem ar.
Li em algum lugar que ele gostava de levar as palavras de Deus para as pessoas .
E eu não sei onde Deus anda .
Mas deve estar desapontado, certamente.
A semana terminou com uma criança caindo de uma janela por uma crueldade de um adulto .
Miguel no ar , sem chão .
Mas eu não também não aguentei ver o vídeo.
E George dizia I can’t breathe.
E tantos no mundo agora também não podem respirar.
Falta ar.
Miguel dizia , quero minha mãe .
Em mim tem faltado coragem para simplesmente ler as notícias .
Respiro antes de pegar o jornal.
Assumo minha covardia .
Então escrevo para enfrentar.
Eu também tenho medo de respirar e nunca quis tanto abraçar minha mãe.
Helena Cunha Di Ciero/ psicanalista

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