Numa terceira margem do Rio

Sentimos o poder da palavra fé logo ao dizê-la: nossa boca se abre como um túnel entre o universo e nosso corpo , formando ali um espaço íntimo e sagrado . Tão forte quanto um poema, essa palavra de apenas duas letras se basta – e, por outro lado, nos basta e nos acolhe em momentos difíceis , de dor , dúvida e desespero. Trata–se de uma ferramenta interna que utilizamos em busca de esperança e sendo assim, ambas caminham de mãos dadas : fé e esperança. São estes os alicerces de um outro estado fundamental para nosso desenvolvimento, a confiança .  No dicionário, fé, confiança e credibilidade são sinônimos.

O  psicanalista  Bion  define a fé como uma resposta primordial  e profunda de defesa contra o sentimento de catástrofe. É uma experiência emocional, singular.  Porém não se trata de uma fé religiosa – um conjunto de dogmas e doutrinas que constituem um culto. Para o autor , esta fé se torna apreensível quando se representa no pensamento e por meio deste. Se trata da fé na existência de uma realidade verdadeira e última.  A fé que move um cientista a ir em busca de algo, mesmo sem dados objetivos .

A beleza da fé é que, não precisa de provas, nem de sustentar se em nada racional para existir . Proveniente do grego fides, fidelidade : a fé É – e pronto . O sentido de fé que coloco aqui é uma convicção íntima, um lugar aonde não resta  dúvida, no qual confio imensamente e  onde deposito meu desamparo.  E de lá tiro uma outra palavra fundamental para ir adiante : Coragem.

É um caminho alternativo que buscamos quando somos frustrados pela realidade . Nesse sentido, ela nos dá uma noção de  resistência  e também de existência – pois é uma forma de confrontar o presente.  Explico: Meus exames dizem que estou doente, meu médico também , mas minha Fé é maior – É uma fala comum entre pacientes nos hospitais,  que mostra uma tentativa de encorajamento frente ao medo provocado por estar de frente á algo insuportável, como uma doença grave. Eu existo á despeito do que está sendo dito, assim eu enfrento.

Podemos dizer então que é uma forma de desafiar o real e que á partir deste sentimento, construímos uma nova realidade. E tampouco são raros os momentos nos quais a fé altera o estado de saúde de alguém. Não falo em milagres, pouco entendo disso. Mas falo dos fenômenos nos quais as pessoas apoiadas na Fé modificam um estado que parecia irreversível .

Sou de origem católica, mas nem um pouco praticante. Mas sempre me comoveu a oração do Credo , que começa com a palavra ‘creio’.  O ato de crer em algo, seja lá o que for, nos tira de um lugar comum e nos transporta para o futuro esperando que algo ali seja mais belo que o hoje. E, nesse ponto, crer  ajuda a movimentar-nos . Crer no sentido de confiar. Confiar que além do horizonte exista um outro lugar é confiar que o movimento trará evolução, que há algo melhor adiante. Nesse lugar da alma que buscamos uma transformação , uma forma de sonhar e  buscar .

A fé não costuma falhar, já dizia Gilberto Gil, é aliada de nosso trajeto. É  ela que move montanhas, que nos ajuda na difícil caminhada da vida. Na peça Alma Imoral, o texto de Nilton Bonder conta que o que fez com que o Mar  se abrisse foi Deus, comovido com a força do caminhar dos Judeus que fugiam do Egito.  Deus comovido  com a fé de seus fiéis que marchavam , abre o mar . A fé move  e comove.

Nos momentos  questionamento e medo , testamos nossos  recursos   contando com algo interno,  se a realidade responde bem, acredito que minha fé em mim e na força de meu passo,  foi capaz de uma possível metamorfose daquilo que estava se passando anteriormente.

Uma questão que fica para mim como mãe e psicanalista é como as crianças de hoje tão viciadas em tecnologia constroem em si um espaço para que esse sentimento adentre e as penetre de forma verdadeira . Se antigamente , entravamos em contato  com eles quando a realidade nos testava,  hoje  com a realidade virtual , cada vez mais tomando posse , onde será que a nova geração busca a coragem? Passando de fase nos games? Confiando  na força dos dedos ao apertar um botão em lugar de confiar na força do passo? E se a realidade é cada vez mais virtual, como é que me diferencio dela á ponto de resgatar em mim um sentimento que possibilite seu enfrentamento ? Seria esse lugar da fé somente interno ou externo? Ou seria algo entre esses dois lugares? Entre o céu e a terra? Uma terceira margem do rio talvez. Eu tenho fé que a realidade impera  e ensina  á partir da experiência ,  sempre.

 

PUBLICADO NA REVISTA AMARELLO EM OUTUBRO DE 2014

Leave a Reply