Sobre ser mãe, sobre ser forte

Minha história como mãe começa meio turbulenta. Mas essa é minha história e sou feliz por poder contá-la. Estava grávida de 36 semanas ,tive uma gravidez perfeita. Engordei pouco, meu bebê cresceu bem, fui rodeada por muitos amigos durante todo esse período. Mas aos nove meses fui avisada pelo médico de meu pai que ele tinha  câncer no fígado. Era uma metástase de um tumor que ele havia tido no reto há dois anos e que havia sido dado como curado. O oncologista ao me contar sobre o diagnóstico foi duro e chamou de belo câncer a coisa mais horrorosa que já entrou na minha família. Era uma quinta feira, meu marido viajando . A sentença de morte de meu pai anunciava-se no corredor do hospital . Tudo branco ao meu redor. Tudo vermelho dentro de mim.Sentia como se sangrasse de agonia. Sou filha única e meu pai era meu porto seguro. Sem ele não concebia a vida.
Meu primeiro pensamento foi: como vou amar essa criança com tanta tristeza no meu peito? Como poderei fazer para cuidar dos dois ao mesmo tempo? Ser filha e ser mãe me parecia impossível. Até por que até aquele dia, só havia sido filha . Só conhecia esse território.
Nas semanas subsequentes , enquanto esperávamos o resultado da biópsia ,minha barriga crescia. O segredo não havia sido revelado a meu pai, o que me trazia angústia dia após dia.
A gravidez havia perdido a graça. Tive muito medo de ter alguma depressão pós parto. Como sou psicóloga , fui a procura de ajuda. Perdi peso. No último ultrassom o médico me disse que meu bebê havia perdido peso também. Resolvemos marcar uma cesárea no dia seguinte. Nesse mesmo dia o oncologista contou a meu pai seu diagnóstico, a gravidade do quadro e o tratamento. Voltei para casa de meus pais. Ele me contou sobre sua consulta. Disse que sentiu-se sacudido pela notícia. E contei minha novidade. Tomamos um suco. Esperamos o dia seguinte chegar.
A cena da doença se suspendeu nos dias em que estive na maternidade. Uma áurea de luz  saiu de dentro de mim, junto com Francisco. Era um sol entrando em nossa família. Senti algo tão pleno, tão sereno, quando vi aqueles olhos que pararam de chorar na sala de parto, quando encontraram os meus. Eu também parei de chorar quando te vi a primeira vez, cisco. Meu bebê.Minha luz. Meu sol.Anunciava-se uma nova era. Um novo amor. Da janela da sala de parto vi meu pai. Segurando o queixo com as duas mãos.Comovido. Realizado.
No dia seguinte ele me disse, com ele nos braços- meio desajeitado com o bebezinho: Valeu qualquer coisa que eu já tenha vivido  pelo dia de ontem. E ligou  para seus amigos para contar do neto, orgulhoso. Disse á um deles,quando indagado sobre sua saúde , alto no quarto :” a vida é luta”.
E assim fui para casa, com meu bebê nos braços. No dia seguinte meu pai recomeçava a quimioterapia, nternado no hospital pois além de tudo ,sofria do coração.
Eu sabia que essa luta não seria mais ganha, haviam diversas metástases em todo seu corpo. Quando Francisco tinha dez dias  fui a outro médico, que foi ainda mais pessimista.
O tempo foi passando e fui vendo que conseguia sim fazer  as duas coisas. Entre as mamadas acompanhava meu pai no médico, por vezes chorando e dirigindo voltava para casa. Meu peito chorava o leite que meu bebê precisava, eu atrasada , ele esfomeado.. Meus olhos choravam a morte que espreitava.
Todos os dias da vida de meu pai ,foram agraciados pela presença de meu bebê. Ele se apaixonava por ele  cada vez mais. Até me dizia :É amor demais que sinto minha filha, nunca imaginei que aos setenta anos fosse sentir meu coração assim por alguém.
Quando meu bebê tinha um mês, retomei o consultório. E a ginástica. Precisava lembrar de quem eu era para ir adiante. Ajudando meus pacientes me sentia viva, capaz, firme.
Francisco passou a ir comigo nas sessões de quimioterapia. Eu acompanhava meu pai com calma,  não saía que nem maluca para amamentá-lo. Fazia -o lá na clínica mesmo. E me dava um gosto de um programa em família quando sentávamos no jardim e ouvíamos os pássaros , nós três. Ou quando iámos cantando no carro até chegar lá.
Meu bebê foi meu oásis. Uma amiga me disse que me sentiria assim com ele . Contemplá-lo me fazia de fato sentir o paraíso bem pertinho.
Por oito meses , meu pai participou do paraíso na terra também. Agora imagino que esteja em outro , com um jardim mais bonito do que o da clínica do Jardim Europa, não mais rodeado por enfermeiros e sim por seus amigos. Acho que ele esperou até que eu desmamasse meu pequeno para ir. Seu quadro só se agravou quando Cisco tinha sete meses. O que me possibilitou ficar bem perto do meu pai no final, ter boas conversas na cama do quarto, levar Francisco para ver o vovô, cantar com ele suas músicas favoritas, desabafar, me aconselhar.
Enterrei meu pai e voltei para casa. Quando Francisco me viu, um sorriso enorme tomou conta de nós dois. E de todos os amigos que viram a cena. E da minha mãe, agora viúva. Todos os dias ele me entrega esse mesmo presente.

Confesso que há dias em que sinto que meu coração vai explodir de saudade.Mas ele costura meu coração. Ensina-me sobre a força do amor. Sobre essa força reparadora , no sentido de consertar aquilo que parece irreparável. Minha dor convive com seu crescimento de uma forma tranquila. Ela está lá,  as vezes quer dominar meu dia. Mas meu pequeno não deixa. Engatinha até ela e me estende a mão.Mostra-me o caminho da esperança. A sala fica verde , pos acabo me sentindo bastante sortuda com o que tenho aqui.
Sim , eu tenho um sol dentro de casa. Ele é maior que qualquer tristeza que faça sombra. Agora não tenho mais meu herói. Mas ainda assim me sinto tão capaz quanto qualquer heroína .É o amor que faz isso com a gente . A vida é luta mesmo , pai.

PUBLICADO NO BLOG ENXOVAL EMOCIONAL

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