Entre o Instituto e as cidades: percorrendo quilômetros em direção à formação psicanalítica

De nuestros miedos
Nascen nuestros corajes
Y en nuestras dudas
Viven nuestras certezas
Los suenõs anuncian
Otra realidad posible
Y los delírios otra razón
En los extravios Nos esperana llazgos,
Porque es preciso perderse
Para volver a encontrarse.

(Eduardo Galeano)

Como é de conhecimento dos psicanalistas, para tornar-se um membro da International Psychoanalytical Association (IPA), primeiramente, é preciso passar por uma formação psicanalítica em um dos seus diversos institutos ao redor do mundo. Ainda que com particularidades e variações em cada instituto, essa formação é fundamentada em três eixos: seminários clínicos e teóricos, análise pessoal e supervisão.

O Instituto de Psicanálise “Durval Marcondes”, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), é um dos institutos da IPA com o maior número de colegas em formação no mundo, totalizando, no ano de 2014, 328 membros filiados (MF) matriculados. Sediado na cidade de São Paulo, desse número total, 36% não residem na cidade onde se localiza o Instituto e onde estão concentradas, majoritariamente, suas atividades. Isto significa que, atualmente, 118 membros filiados viajam semanalmente pelo período mínimo de cinco anos com o objetivo de frequentar os seminários da formação. Considerando o tempo, o deslocamento e o empenho necessários, nota-se que alguns que iniciam não terminam a formação e que pessoas que não são profissionais da área se assustam com tal investimento.

A maioria das pessoas que busca a formação nesse instituto já tem uma trajetória profissional estabelecida, logo, pergunta-se: o que faz um analista dispor de seu tempo com a família, de seus horários de trabalho, de vultoso investimento financeiro, entre tantas outras coisas, para buscar essa formação?

Tratando-se especificamente dos membros que vêm de outras cidades, o que os impulsiona a viajar por horas e horas para frequentar os seminários propostos, além do desenvolvimento profissional?

A riqueza de fazer parte de uma instituição plural e que congrega analistas de tantos lugares, adeptos e criadores de diversas teorias, de produção científica interessante, torna o Instituto “Durval Marcondes” muito convidativo, oferecendo um currículo composto por opções variadas e que poderá ser, em parte, estruturado pelas escolhas pessoais de cada MF, condição nem sempre proporcionada por outros institutos. Além disso, muitos profissionais que buscam o Instituto já conhecem a competência dos analistas de suas próprias cidades por meio de cursos, supervisões e análise pessoal, sendo a ida a São Paulo a possibilidade de diversificar o conhecimento por intermédio da formação da IPA.

 

Fé, paixão, desilusão e amor

Para ser psicanalista, são necessárias certas doses de inquietação, de pungência, de vida, de paixão. Em seu artigo “Realidades e ficções na formação analítica”, Cibele Brandão menciona qual é o objetivo de uma formação:

o que queremos é que haja a inserção da mente em um longo e interminável processo de transformação. E que fique a convicção de que a mente de um analista é infindável em sua capacidade de cultivo. Para isso, essa atitude de constante cultivo, está implícita que novas investidas têm que ser feitas … A formação não possui respostas prontas. É mais uma condição de tudo ser buscado pela verdade e não por estatutos. (Brandão, 2014, p. 3)

Desta forma, não se trata de cumprir algo estatutário para receber um título, mas, sim, de um processo de transformação que lapida o olhar e a escuta, e objetiva expansão mental. É o desassossego e a busca que nos põem em direção a vivenciar o árduo, longo e solitário caminho do vir a ser analista.

A psicanálise é também composta de fé, em seu sentido atribuído por Paschoal Di Ciero Filho. É o que nos mantém nos momentos de dificuldade, dúvida e impotência. As palavras desse autor que, estão em seu trabalho “Fé e compreensão psicanalítica”, ilustram esse pensamento:

Considero a fé como sendo uma convicção íntima, algo que não permite qualquer dúvida. Se trata de uma qualidade de experiência total que abarca não apenas o intelecto como também as emoções e afetos. É a fé que motiva o cientista a ir em busca de uma verdade, mesmo quando não há dados objetivos que mostrem que ele está indo pelo caminho certo. Nesse sentido, tem a mesma conotação de esperança. (Di Ciero Filho, 2010, p. 1)

Entendemos a fé na formação psicanalítica como a esperança numa melhor realização do ofício do analista. Fé e paixão, neste contexto, não supõem a ausência de questionamentos, por essa razão a Associação dos Membros Filiados (AMF) tem como parte de suas funções a recepção, o abrigo e a reflexão a respeito das diversas inquietações que certamente serão experimentadas no percurso do MF dentro do Instituto, e busca auxiliar servindo de interlocutor para as melhorias que precisem ser realizadas no processo de formação.

No que se refere aos MFs que não residem em São Paulo, a diretoria da AMF tem um representante do interior1 na equipe, o qual trabalha como ponte de contato, receptor de necessidades e agente de construções diante das demandas que os membros filiados viajantes apresentam em seu trajeto. Com o canal aberto para o diálogo, a AMF espera conhecer e discutir as especificidades e, mais do que trazer respostas, por meio deste artigo objetiva ampliar e compartilhar essa reflexão.

 

Tempo e espaço

De modo geral, a formação psicanalítica requer um espaço considerável na vida do membro filiado, mas para os que não residem na capital é inevitável um longo tempo de deslocamento entre seu ponto de partida e o Instituto. Cidade conhecida pelo intenso fluxo de veículos e trânsito caótico, aqueles que vêm de fora também encontram acesso difícil pelas estradas em horários de pico, em caso de obras ou acidentes de trânsito, gerando dificuldades e restrições na possibilidade de participação em atividades e seminários. De modo geral, os viajantes têm menor flexibilidade de horário e precisam concentrar seminários em horários compatíveis com a viagem. Por causa da distância, geralmente não participam das atividades científicas que acontecem no decorrer da semana. Seria este um fator de restrição na formação e interferência no sentimento de pertencimento desses membros ao Instituto?

Se, por um lado, surgirão restrições, por outro, as viagens tornam-se também um tempo-espaço preestabelecido e constante que os retira da turbulência de atividades diárias, como um setting, e permitem devaneios, sonhos, introspecção, tão necessários à elaboração das transformações que a formação psicanalítica ocasiona. Os processos de transformação que acontecem na personalidade do analista em formação requerem tempo e espaço para elaboração. As viagens tornam-se, então, um espaço reservado à capacidade de sonhar que, muitas vezes, o cotidiano não permite em razão das suas atividades.

Esse tempo de elaboração será construído e encontrado por cada membro filiado, independentemente de viajar ou não, mas no caso dos que viajam, o tempo já está constituído, um período de trânsito que passa a ser também um espaço para o diálogo entre os territórios conhecidos e estrangeiros que residem em cada um de nós.

As viagens em quilômetros, findáveis em seus destinos, assim como a formação, infindável em sua construção, tecem o percurso do vir a ser analista.

A estação Instituto, ponto de chegada e de partida, permeada de estímulos, coloca o membro filiado em contato com a teoria, com os colegas, com as discussões de sua clínica, como também com outro ritmo, outro trânsito, outra paisagem humana e urbana que certamente ressoam dentro de cada um de diferentes formas. Alguns podem manter um sentimento de ser “de fora”, se alternativas viáveis não forem consideradas. O cansaço pode surgir, o caminho é longo e os obstáculos não são poucos.

 

Nem tudo são flores

Na sala de análise, o contato com o universo psíquico mobiliza angústias, gera resistências, descortina recursos internos, aponta coragem, apresenta verdades e nos aproxima do estrangeiro que habita em cada um de nós. Assim, acontecem os encontros e despedidas internos e externos. É preciso desfazer-se de antigos hábitos e saberes, reconfigurar, ressignificar, rever e resgatar raízes. Estas são experiências emocionais de todos aqueles que se propõem a fazer a formação psicanalítica, e a viagem interior-exterior estará presente de qualquer forma.

O encontro com as desilusões fará parte do processo e, nesses momentos, os obstáculos objetivos podem se tornar quase intransponíveis. É quando se tem a possibilidade de transformar a paixão em amor. Ana Maria Stucchi Vannucchi, em seu artigo “Medo e paixão na formação psicanalítica: uma trajetória pessoal”, faz o seguinte comentário:

Acredito que o amor difere da paixão, pois nele a libido se atenua talvez em decorrência da “passagem” do princípio do prazer ao princípio da realidade, o que pode implicar um processo de transformação, onde surgem outros elementos além da sexualidade, como ternura, admiração, cuidado etc. Além disto, implica um movimento do narcisismo em direção à alteridade, que supõe a possibilidade de se aproximar do outro mais como ele é, e não apenas como desejamos. (Vannucchi, 2013, p. 56)

 

O quarto eixo da formação psicanalítica

Quando a carga horária obrigatória de seminários foi cumprida, ou mesmo quando o membro filiado já se tornou membro associado da Sociedade, não é raro que os que não residem em São Paulo diminuam significativamente as suas viagens, seja para seminários e atividades opcionais do Instituto, seja para participar de atividades oferecidas pela Sociedade. Haveria, assim, uma fragilização do vínculo com a instituição?

Conforme mencionado pelo próprio presidente da IPA, Stefano Bolognini (2014), ao discorrer sobre os modelos de formação psicanalítica, a inserção institucional, por meio do desenvolvimento da capacidade de se engajar em atividades científicas conjuntas e na vida da instituição, seria um possível quarto eixo da formação e aquele que permite a manutenção da tão necessária capacidade de cultivo e expansão constante da mente do analista, além de propiciar atualização quanto a técnicas e teorias. Bolognini comenta o fato de que nas mais diversas profissões o conceito de formação constante está bastante estabelecido e deve ser exemplo seguido pelos psicanalistas.

Não residir na mesma cidade do Instituto e, por essa razão, enfrentar longas distâncias, dispêndio financeiro, entre outros fatores, pode aumentar o risco de isolamento desses membros? Nesse sentido, alguns pontos podem ser pensados, os quais apontamos a seguir.

 

A tecnologia

Como tem sido o aproveitamento das facilidades da tecnologia pelos membros filiados que não residem em São Paulo?

Assim como a própria SBPSP tem feito, uma das ações da AMF tem sido a transmissão on-line de algumas de suas atividades que permitem, até mesmo, a participação ativa via Skype ou enviando perguntas pelo chat.

Por sua abrangência global e acostumada a lidar com distâncias, a ipso (International Psychoanalytic Studies Association), por meio de sua representante na AMF, tem promovido semestralmente videoconferências clínicas e teóricas que reúnem, por meio da internet, analistas em formação de diversos institutos do Brasil e mesmo do exterior, como foi o caso de Lisboa e Madri. Esse modelo poderia ser também aproveitado pelos membros filiados de um mesmo instituto, caso não residam na cidade? Seria útil? Viável?

Observa-se que a participação por meio de ferramentas da tecnologia ainda tem sido tímida. Seria por falta de intimidade com o instrumento ou por inadequação da mesma numa formação psicanalítica?

Evidentemente, este artigo não comportaria a extensão e a complexidade da discussão acerca da tecnologia como instrumento nos institutos de psicanálise, embora já haja experiências como no Japão e na Ásia, mas se estamos falando em distâncias, inclusão e pertencimento, o assunto não poderia deixar de ser lançado como questão na era digital em que vivemos.

 

Atividades locais

Outro ponto a ser considerado como um possível facilitador nesse longo percurso de formação e como vínculo com a SBPSP é o fato de que, além dos Núcleos de Psicanálise e das Regionais da SBPSP oferecerem atividades em diversas cidades do estado, muitos membros efetivos e analistas didatas da SBPSP também residem no interior, de modo que, paralelamente às atividades no Instituto, é possível ocorrer seminários locais para os membros filiados de uma mesma cidade e cidades vizinhas.

Existem, também, os encontros científicos, em que coordenadores de seminários clínicos e teóricos se deslocam para as diversas cidades nas quais residem membros filiados e associados. Assim, a psicanálise nutre e se propaga além da capital.

 

A importância das amizades

Consideramos a amizade como ponto de sustentação, continência e apoio. O amor e a ética, aspectos necessários e fundamentais num analista, alicerçam o sentimento de amizade. Faz parte da formação dos membros filiados que viajam até a capital a solidão como companheira, seja durante o período das viagens, seja enquanto permanecem em São Paulo por dois dias em virtude da análise didática concentrada. Isto permite um forte contato com o próprio universo psíquico. Em contrapartida, a continência encontrada nas relações de amizade estabelecidas com os colegas de formação e alguns coordenadores propicia crescimento e favorece a continuidade no percurso.

Mujica (2000), citado por Luis Kancyper (2013), em seu trabalho “As transferências em psicanálise com crianças e adolescentes: narcísica, edípica, fraterna e amizade de transferência”, comenta:

A palavra amigo vem da raiz grega da qual derivam o amor e amigável. Nos surpreende: a amizade, é uma das formas de amor, a forma que assume quando a intimidade inclui a distância. Da mesma raiz vem também ama no sentido de mãe, de mamãe. Tampouco isto deveria nos surpreender, se pensarmos que a amizade, como todo amor, tem a capacidade de fecundar: gera singularidade. Ainda mais, poderíamos dizer que a amizade é precisamente o dom da singularidade: alguém me escolhe, me retira do tumulto de outras relações humanas, sem me fazer “seu”. Neste sentido a amizade é como um nó desatado, um pacto de gratuidade, é um evento não só de amor, mas também de liberdade, mas de liberdade comprometida na história do outro, do outro amigo: o singular. (Mujica citado por Kancyper, 2013, p. 166)

O mergulho em direção ao outro, proporcionado pela relação de amizade que é vivenciada nos grupos durante a formação em conjunto com uma série de elementos, alinha e tece a identidade do analista em sua formação.

A relação de amizade estabelecida consigo mesmo em razão do desenvolvimento possibilita uma maior integração com os aspectos estrangeiros de cada um. Nos momentos de maior integração, por sua vez, propicia a aquisição de um continente para aquilo que é abrupto, desconhecido, inefável.

O contato com o estrangeiro em nós, assim como a sensação de ser estrangeiro, vivenciada durante a formação na capital, não deixam de ser ferramentas essenciais ao trabalho psicanalítico. Em cada sessão de análise, pessoal ou de atendimento, encontramo-nos em terra estrangeira e com o estrangeiro. Assim deve ser. Quando se está num país diferente, a curiosidade e certo cuidado no trato diante do desconhecido se fazem necessários. Esses estados mentais, advindos da experiência de forasteiro, transmitem certo frescor ao trabalho psicanalítico.

Como não nos lembrarmos da fala de Bion (1990) em “Notas sobre memória e desejo”:

A observação psicanalítica não concerne ao que ocorreu, nem ao que vai ocorrer, mas ao que está ocorrendo … toda a sessão na qual o psicanalista toma parte não deve ter história nem futuro. O que se conhece sobre o paciente não tem a menor importância, é obsoleto, falso ou irrelevante. Se é conhecido pelo analista é obsoleto. Se é conhecido por um, mas não por outro, uma defesa está operando… . O único elemento importante em qualquer sessão é o desconhecido. (Bion, 1990, p. 30)

Uma mente funcionando de modo mais integrado permite estar nesse estado de capacidade negativa, sendo tomada aqui como a capacidade de existir entre incertezas, mistérios, dúvidas, sem pretender alcançar a razão ou os fatos (Lisondo, 2012), isto é, condição mental de suportar desconhecer para poder de fato se aproximar da experiência emocional essencial de si e do outro, ou melhor, do Eu e os outros Eus, seja em mim, seja em ti.

Todo esse caminho implica muitos quilômetros. São inúmeras as viagens interiores e exteriores para se adquirir uma expansão psíquica e manter vitalizado o sonho do vir a ser analista.

O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Com ele eu teço o mundo, reinvento a via-láctea.
Mistérios são bem-vindos, o sonho é meu pastor.

Edival A. L. Perrini

 

Referências

Bion, W. (1990). Notas sobre memória e desejo. In E. Spillius, Melanie Klein hoje: desenvolvimento da teoria e da técnica (Vol. 2, pp. 30-34). Rio de Janeiro: Imago.         [ Links ]
Bolognini, S. (2014). ¿Hacia un “modelo cuadripartito”? Recuperado em 6 de junho de 2014: http://www.ipa.org.uk/es/Newsletters/From_the_President_May_2014_Spanish.aspx?WebsiteKey=ed3ed671-37e8-44c0-8741-7d8f70844586        [ Links ]
Brandão, C. M. M. D. B. (2014). Realidades e ficções. In Anais do Encontro Científico do Núcleo de Psicanálise de Marília e Região (pp. 1-10). Marília, SP: Núcleo de Psicanálise de Marília e Região.         [ Links ]
Di Ciero Filho, P. (2010). Fé e compreensão psicanalítica (p. 1). Trabalho não publicado.         [ Links ]
Kancyper, L. (2013). As transferências na psicanálise com crianças e adolescentes: narcisista, edípica, fraterna e a amizade de transferência. Revista Brasileira de Psicanálise, 47(1),159-173.         [ Links ]
Lisondo, A. D. (2012). As experiências emocionais nas diferentes transformações e o contato com a sexualidade. In J. R. Cecil, E. S. Marra & M. Petricciani (Orgs.), Afinal, o que é experiência emocional em psicanálise? (pp. 09-30). São Paulo: Primavera.         [ Links ]
Perrini, E. A. L. (2001). Armazém de ecos e achados, poemas. Curitiba, PR: Do Autor.         [ Links ]
Vannucchi, A. M. S. (2013). Medo e paixão na formação psicanalítica: uma trajetória pessoal. Jornal de Psicanálise, 46(85),49-60.         [ Links ]

 

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL DE PSICANALISE

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