Lixo Eletrônico Tóxico

Uma reflexão

 

O trabalho com adolescentes é caracterizado por um terreno de difícil acesso. Atualmente, porém, o campo enfrenta uma nova resistência: a internet. Os adolescentes estão constantemente online, inclusive durante as sessões. Por vezes,  a  persona non grata do celular apita em momentos preciosos, causando distrações, distanciamento, e uma quebra da experiência emocional.

O aparelho hoje aparece na sessão quase como um objeto transicional, no qual muitos pacientes se agarram como a um objeto de segurança e projeção, até mesmo um objeto persecutório: “Deixa ver se desliguei o aparelho antes de entrar, vou te contar um negócio“.

Seria o aparelho um novo espelho? Vejo os pacientes por vezes usando seus snapchats como uma tentativa de conversa consigo mesmo, olhando para a tela do celular. Uma espécie de espelho narcísico. Tudo é filmado, as fotografias tem perdido espaço, hoje há muito mais vídeos que há dez anos atrás.

São muitos os Youtubers que ganham espaço nas bilheterias do cinema. Líderes com milhares de seguidores que propagam na rede o que pensam, o que comem, o que valorizam. No YouTube, os adolescentes se expõem, ganham seguidores desconhecidos que comentam seus vídeos. Comentários nem sempre positivos, já que existem também os haters, que descarregam sua fúria em quem se expõe. Fúria alimentada em anonimato e com a proteção da tela de computador .

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 A internet é terra de todos, ao mesmo tempo em que não é de ninguém.

 

São esses os novos tempos no qual se dará o crescimento desses pacientes. O sujeito de hoje transita pelas realidades externa, interna e a virtual.

Recentemente uma paciente me contava sobre o cachorro que ganharia dos pais e, quando perguntei sobre a raça, fiquei surpresa com a resposta: Estou sem bateria, não consigo te mostrar no Google, droga!. Quando lhe pedi que me descrevesse o animal, a paciente ficou desconcertada. Como fazer isso sem a ajuda do buscador? A mente que descreve,  fantasia e sonha, para onde foi?

 

Mudanças e contradições

 

Há também uma denúncia na clínica atual, de certas contradições: os jovens,  ao mesmo tempo em que trazem questões a serem valorizadas, trazem também outras que merecem que nos debrucemos com cuidado.

A homofobia, por exemplo, é hoje um defeito inadimissível. Existe um respeito pelas diferenças – ponto para a nova geração.  Nos anos 90, um adolescente nem sequer sabia que essa palavra existia. Hoje, ela é repetida inúmeras vezes como uma falha, que  deve ser levada a sério: “Não falo mais com fulano, ele é homofóbico, você acredita? Que absurdo.”

Escuto essa frase com frequência no consultório e recebo com otimismo a geração que está chegando. Talvez o futuro possa ter um horizonte mais tolerante, com mais respeito e compreensão.

Considero também muito rico esse movimento das meninas que lutam pelo feminismo, questionando-se sobre o papel da mulher. Brigam para serem ouvidas na escola, enfrentando a seu modo uma sociedade que emoldura e enfraquece as mulheres desde cedo.

Por vezes até exageram, confundindo gentileza com machismo: “Ele abriu a porta do carro no primeiro encontro, que machismo, acha que sou frágil!”

É sabido que a adolescência é um periodo marcado por emoções exacerbadas, intesas, exageradas no tom, a fim de se fazer visto e ouvido. Tudo nessa fase da vida é grande, intenso, em technicolor, ou melhor dizendo: em CAPSLOCK. Contrapondo um ego frágil em transformação.

Mas de uma maneira geral, é bastante esperançoso ver meninas de 13 anos, durante suas sessões de análise, pensando sobre uma sociedade que engessa a mulher. Me parece que esse questionamento tem aparecido antes de se sentirem acuadas no papel feminino. Percebo que hoje, a feminilidade é construída junto dessa reflexão, e não posteriormente.

Por outro lado,  alguns temas merecem cautela: a propagação de letras de funk absolutamente misóginas é um deles. Essas mesmas meninas que brigam para serem respeitadas pelas suas escolhas sexuais, entoam mantras de funkeiros que são absolutamente  desrespeitosos  com a figura feminina, às vezes até violentos. Me pergunto se essas jovens que cantam essas canções compreendem de fato o que estão reverberando. Se querem ser tratadas pelos parceiros como as personagens das canções que vivem em suas playlists. É só ouvir Mc Jojo. Mc Princesa ou Baile de Favela para compreender o que digo.

O fato é que as playlists revelam funks com um tom de violência e de desqualificação da mulher. E tocam repetidamente em todas as festas. Os tais “proibidões” são a antítese desse discurso feminista. Colocam a mulher num contexto que banaliza não apenas a sexualidade, como as drogas.

O desabrochar dessa fase marca toda uma relação “eu-corpo” que durará por toda vida. Intimidade não pode ser excluída desse período, como se fosse algo sem valor. Intimidade é um espaço importante da construção do psiquismo, impossível de ser deletado, não é peça de antiguidade.

 

Sobre se expor voluntariamente e vazar nudes

 

Recentemente assisti ao documentário Hot Girls Wanted, que investiga a entrada de  jovens meninas no mercado pornográfico. Todas por volta de 18 anos, em busca de dias de glória e glamour. “Já que vou transar, por que não filmar? Já que o nude pode vazar, melhor eu mesma me expor por vontade própria” – questiona uma das jovens. São meninas que entram nesse mercado em busca de fama e sucesso às custas de uma exposição violenta, precoce. Uma decisão impulsiva, um acting out em busca de independência.

A maneira como o filme se desenrola é bastante respeitosa, o olhar do diretor não se aproveita do corpo das moças (que é raro, em geral, pois sempre se tira uma casquinha das atrizes). No caso, embora o documentário fale de sexo, não exibe nudez. O assunto é manuseado com o cuidado necessário. Cuidado este que as próprias jovens do filme não têm consigo mesmas, muitas vezes descartando o uso de preservativo para ganhar mais com as cenas de sexo. Num momento, uma das meninas conta que fez uma cena de sexo sem camisinha e, por isso, recebeu cem dólares a mais. Mas teve que comprar a pílula do dia seguinte, tendo portanto lucrado apenas oitenta.

O espectador acompanha com tristeza a falta de intimidade dessas meninas consigo mesmas, com seus sentimentos, com seu próprio corpo. O olhar, por vezes assustado, por vezes opaco, que elas trocam com os parceiros-atores, a violência à qual se submetem, a falta de amor pelo próprio corpo.

Fiquei surpresa ao saber que muitas delas se sujeitam a um tipo de filmagem de uma categoria chamada Facial, na qual são humilhadas na frente das câmeras, sofrem violência física, fazem sexo forçado até vomitar,  dentre outras coisas tão chocantes que considero de mal gosto redigir . Essa categoria do pornô está disponível para quem quiser ver, num simples clique.

O filme é uma denuncia triste. Vale assistir para refletir. Refletir que toda uma geração formará sua sexualidade assistindo vídeos na internet e esbarrarão em conteúdos como estes. Ouvindo canções repletas de violência e promiscuidade que podem vir a ser a canção-tema de uma noite marcante.

O fantasiar foi em alguns aspectos substituído pelo Google, porém muitas vezes o conteúdo digital é assustador. A internet oferece possibilidades diversas, sem que o jovem tenha um aparelho digestivo psíquico suficientemente forte.

Devemos pensar cuidadosamente sobre como as mídias podem ser invasivas, sobre o que é informação e o que é lixo eletrônico tóxico, cujos resíduos ficam marcados permanentemente numa mente em formação.

 

PUBLICADO NA REVISTA AMARELLO ADOLESCENCIA

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